sexta-feira, 2 de julho de 2010

A dor da felicidade

Faz mais de uma semana, duas talvez, e cada dia que acordo eu estou maior, mais gorda... Parece que quanto menos eu como mais eu engordo, como fazer isso parar?
Eu me pergunto todos os dias, no caminho para a escola, quando aquelas pessoas ficam me olhando, eu estou tão gorda a ponto de sentirem pena de mim? Ou é medo? Já não sei mais, tudo parece tão difícil pra mim agora, eu não tenho mais forças pra nada, me sinto horrível, e aparentemente todos sentem nojo de mim, e só pode, parece que têm medo de me tocar, não devem gostar de gente assim, como eu, gorda, gorda, gorda, eu sou gorda...
Mamãe me chama para o jantar, temos pizza, eu amo pizza, e eles sabem disso, mais parece que tem uma bola em meu estômago e eu não consigo comer, simplesmente não passa nada da garganta, nem todas aquelas vitaminas que a médica receitou, acho que não vou conseguir comer, e quando digo isso à mamãe ela chora, será que ficou ofendida? Ou ela tem medo de mim? Será que minha própria mãe tem medo do que eu me transformei? Esse monstro enorme e cheio de imperfeições, cheio de buracos e riscos roxos...
Vou para meu quarto e olho no canto todas as roupas que já não servem quem sabe um dia eu emagreça o suficiente para entrar nessa calça? O suficiente para usar esse vestido? Quem sabe...
No outro dia eu não acordo bem, mamãe insiste para que eu coma algo, mais a bola ainda não saiu de meu estômago, e eu não consigo comer nada, ela não chora parece mais conformada em ter uma filha gorda.
Eu vou para a escola, não como nada, não almoço, nem como nada durante a tarde, nem à noite, nem nos outros três dias...
No terceiro dia eu acordei pela manhã, e mal consigo abrir os olhos, estou tão fraca, preciso comer, mais não posso a bola ainda está em meu estômago, e cada vez está mais forte, mais impossível de controlar, e uma dor terrível começa e eu não consigo chamar mamãe, eu não consigo me mexer.
De repente desperto, ouço um barulhinho, um bip constante e irritante, eu quero abrir meus olhos e ver o que é mais tenho medo do que aconteceu, medo do que terei de enfrentar a partir de agora. Mas tenho que ter coragem, força, não posso desistir.
Abro meus olhos, existe uma luz em cima de mim, uma luz linda, forte... Olho para meu lado mamãe está lendo alguma coisa que não consigo ver direito, agora preciso chamá-la: “mamãe?” ela sorri, acho que está feliz, ela chama alguém, é uma mulher de branco, médica talvez, ela aplica algo em meu braço, já não dói.
Sinto-me mais forte, mais não quero comer, eu só consigo imaginar o quanto engordei com todo esse soro, todas essas aplicações de vitaminas, com todos esses comprimidos novos.
Um mês se passou, eu não saí daqui, e nem sei se vou sair, só sei que me sinto péssima, sem espelhos, sem poder me ver, eles disseram que é melhor, eu não acho, mais eu comi nos últimos dois dias, acabei vomitando, mais a médica disse que é normal depois de cinco meses. Aos poucos eu vou me sentindo melhor.
E mamãe? Ah, a mamãe, chora todos os dias, acha que não vejo, mas quando desperto, a ouço saindo do quarto e a vejo secando o rosto, não entendo direito. Às vezes desejo que tudo termine logo, e mamãe pare de sofrer, pare de mentir para si mesma que eu vou melhorar, pare de se enganar e achar que um dia eu vou sair daqui.
O tempo passa e a cada dia eu pioro um pouco, como em uma escala onde um dia estou por cima, e em outro em baixo, sem saber como será amanhã. Hoje me sinto fraca, estou aqui há 45 dias e não sei se passarei a noite, ninguém sabe, ou se sabem preferem não me contar, preferem não me avisar, não querem me assustar, não acham necessário me avisar, acham que vou saber a hora, vou saber quando tudo for terminar.
Hoje completam três meses que aqui estou, e muitas pessoas que conheço vieram me ver o dia todo, e um dia me disseram que quando vemos muitas pessoas que há muito não víamos quer dizer que vai acabar, vai terminar, e eu sei que vai, só não sei quando.
Olho pro relógio, 23h45min, e uma dor no peito que não cessa que aumenta a cada lágrima que cai de meu rosto, e de repente uma palpitação, uma dor familiar na barriga, acho que é fome, e essa dor de cabeça, essa falta de ar. Acho que chegou à hora, a hora que eu sei que chegaria, e por vezes pedi que chegasse mais rapidamente, a hora da despedida chegou mais simplesmente não tenho de quem me despedir, mamãe foi pra casa, acho que desistiu de sofrer, chegou a hora, e nem posso dizer adeus.

Bruna Rafaela Ferreira

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